domingo, fevereiro 18, 2007

Zooropa

Tens o CD que te dei?
Eu também gostava, mas tu gostavas mais, e eu queria dar-te um presente. O empregado da loja espanhola nunca tinha ouvido falar de "you two", mas depois de alguma confusão, lá se fez luz na cabeça do moço, que prontamente me trouxe os "u dos". Ainda tens o CD que te dei? E a cassete que me emprestaste, daquela banda de quem eu nunca ouvi falar, e da qual nunca mais ouvi nadinha que fosse, nem mesmo a música que eu gostava mais, ainda a tens? Ouvi essa cassete tantas e tantas vezes, até que decorei as músicas quase todas, e só não aprendi mesmo as letras de todas elas porque aqueles tipos cantavam muito depressa, e o francês nunca foi o meu forte. Ainda tens essa cassete? À força de tanto a tocar no gravador caixa de sapatos da minha mãe, a fita partiu, e eu senti-me tão mal, nunca me tinha acontecido partir uma fita de uma cassete, nem nunca me voltou a acontecer, fiquei tão triste e preocupada porque não era a minha cassete, e quando ta devolvi, até nem ficaste muito chateado, um bocadinho talvez, mas não muito. Ainda tens o CD que te dei? Comprei um para mim, mais tarde, mas quando olho para ele lembro-me sempre de ti, e pergunto-me se ainda terás aquele que te dei.
Não comprei a cassete do Benny B, só hoje é que pensei que até a podia procurar, mas não quero, não quero voltar a ouvir aquelas músicas, já bem basta quando me lembro delas. E de outras, como aquela que me pediste para tocar na rádio, e que agora sempre que a ouço me faz lembrar de ti.
O mais engraçado é que nem me lembro do teu nome. Lembro-me das iniciais, do primeiro e segundo nomes, mas o resto não. E lembro-me do teu aniversário, que é daqueles que não se esquecem porque calham numa data importante. E lembro-me da última, e ao mesmo tempo primeira, carta que me escreveste, lembro-me do papel e do envelope, mas não me lembro do conteúdo, que também já não tinha importância nenhuma, e achei tão estranho escreveres-me uma carta quando já não nos víamos há tantos meses, e nem me lembro se era dia dos namorados ou se era o meu aniversário. Devia ser o meu aniversário. E nem sei como arranjaste a minha morada, fiquei a pensar nisso, mas nunca te escrevi - será que a morada vinha no envelope? - e não me lembro de te ter voltado a ver. A carta, devo-a ter perdido numa das muitas mudanças, juntamente com tantas outras coisas que perdi, mas a memória, essa trago-a sempre comigo e apesar de ir guardando muito fundo algumas informações, tão fundo que já nem consigo ir buscá-las, às vezes desperta e traz tudo ao de cima como se tivesse sido ontem a última vez que fizemos tanto mal um ao outro. Não te disse nada depois de nos separarmos, nem mesmo depois da tua carta - penso que nem sequer era nada de muito pessoal, talvez fosse curiosidade tua, a ver o que eu fazia, talvez fosse uma forma de pedires desculpa, talvez fosse um trabalho de casa, sei lá porque é que me foste escrever naquela altura.
Eu não fiz como os outros, e foi por isso que nunca mais te vi. Não voltei, nem naquele ano, nem no seguinte, nem no outro, nem nunca, àqueles sítios ou àqueles eventos onde nos poderíamos ter reencontrado. Eu, tu e os outros. Simplesmente tinha tudo acabado, inconscientemente, eu tinha recomeçado tudo, e não podia perder nem um minuto da minha nova vida. E também não queria voltar àquele turbilhão em que vivemos. Hoje dá-me vontade de rir. As coisas que eu fiz, as coisas que tu fizeste, as coisas que nós fizemos. As coisas que ainda eram as mesmas. Os cigarros que eu não sabia que fumavas nas festas, a minha mini-saia vermelha, os copos a mais (mas nem tanto), a música mesmo muito boa (música que ainda hoje gosto e nem sequer me faz lembrar de ti), as luzes da pista de dança.
Acabou tudo ali, na rua, comigo, contigo, com eles. Mesmo que não tenhamos acabado. Ainda que nos víssemos e estivéssemos juntos durante meses depois. Eu fui por um lado porque tu tinhas ido por outro, e ainda que continuássemos juntos fisicamente, espiritualmente passámos a estar de costas voltadas. Tu não sabias nada. Eu aprendi muitas coisas, mas no início sabia ainda menos que tu.
O mais estranho de tudo, é que nunca nos despedimos. Não dissemos adeus. Não me lembro do nosso último encontro, não me recordo de algum dia ter tido a consciência de que era a última vez que te via, apesar de saber que não te poderia ver pelo menos por alguns meses. E ainda assim, nunca mais te voltei a ver.
Ficaste-me gravado para sempre. Pelo bem, e pelo mal, principalmente pelo mal, que nunca vou esquecer, apesar de já não me incomodar. Ainda tens o CD?
6 comentário(s)

6 Comentário(s):

Este post é tão genuíno e fluído como as catadupas de sentimentos q ele provoca. Acho q todos/as temos histórias assim, diferentes nos detalhes, mas provavelmente semelhantes na intensidade e no q fica, depois. Se calhar, doçura; às vezes um travozito amargo. Mas tem piada.
Há pessoas de quem me lembro apenas pelas músicas.
Obrigada por este teu post.

By Blogger cris, at 1:40 da manhã  

e é nestas alturas que eu digo "eu gostava de saber escrever assim..."
faço minhas as palavras da cris: obrigado!

By Blogger tiago, at 6:28 da tarde  

Tao queridos, obrigada eu. Isto não é escrever, é (quase) terapia, eheheh. :)

By Blogger Snowgaze, at 8:15 da tarde  

Gostei tanto Snow! Há uns tempos que não nos brindavas com estas pérolas...
lindo :)

By Blogger Cromossoma X, at 2:55 da tarde  

estou sem palavras...
vi-me e revi-me e lembrei-me de muita coisa que estava há muitos anos no fundinho das gavetas da minha alma!

By Blogger bruxinha, at 5:56 da tarde  

A Cris já disse tudo, faço minhas as palavras dela, na integra.

By Blogger Micas, at 8:36 da manhã  

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