segunda-feira, dezembro 18, 2006

Sempre quis fazer isto...

Quando era miúda adorava ir para casa dos meus avós. Não era por eles me darem doces (não davam), nem pelas histórias que repetiam sempre, e continuaram a repetir até morrerem, sempre as mesmas, que hoje reconto ao meu pequeno. Não era pelas crendices que eu me recusava a acreditar ("não comas fruta depois de beberes leite que isso faz mal"). Também não era pela fruta da boa, à fartazana, que o meu avô descascava porque era a única maneira de no la fazer comer. E também não era pelos tremoços, que tirava do frigorífico até encher um prato de sopa e depois comia em frente à televisão, se bem que esta é das melhores recordações que tenho das coisas que fazia em casa dos meus avós.

Aquilo que eu, miúda, adorava, era a aventura de viver uns dias de maneira totalmente diferente ao que estava habituada. Andar de burro (a cavalo no burro) por uns caminhos de pedras grandes, puídas e escorregadias, até ao"chão", que era como o meu avô chamava ao pedaço de terra onde tinha uns casebres, laranjeiras, amendoeiras, e uma figueira no cimo do casebre que tinha sido construído por cima do poço. A aventura de ir à casa do castelo, uma casita que provavelmente pertenceu aos meus bisavós, que nunca conheci, e onde havia sempre tesouros prestes a ser descobertos: as revistas do tempo do Salazar (tantas e tantas Fagulhas que li e reli, na esperança de que tivesse as necessárias para ler as minhas histórias preferidas até ao fim), as bicicletas velhas dos meus tios, que ninguém usava e que nós sempre pedíamos para andar (sem sorte nenhuma, que as bicicletas estavam sujas e precisavam de óleo e tinta a cobrir a ferrugem, e cujos travões eram inúteis, mas ninguém tinha vontade de as arranjar).

A própria casa dos meus avós era uma aventura em si mesma. A cozinha, pequenina, com uma lareira onde a minha avó cozinhava no inverno, com potes de ferro, de onde saía uma sopa deliciosa com bocados de batatas e cenouras, e grão de bico sempre inteirinho. A braseira, que se levava para a sala cheia de brasas vermelhas, reluzentes e quentinhas - e que hoje só de pensar nisso tenho arrepios, como é que nunca ninguém se queimou lá em casa?! A despensa, escura e misteriosa, de onde saíam brinquedos dos meus tios, com que nos entretínhamos durante tardes inteiras. A Balança, aquele objecto histórico, onde nos pesávamos todas as vezes que lá íamos, de ferro, enorme, e os pesos que utilizávamos, grandes, enormes, pendurados na tabuinha que, presa por correntes metálicas de argolas, oscilava a cada novo peso que lhe era acrescentado.

O rádio antigo, castanho por fora, creme à frente, parecido com os que se vêm nos filmes, mas que raramente era utilizado, e o outro rádio, o que fazia companhia ao meu avô enquanto trabalhava, esse sim, misterioso, enfiado numa mala preta com fechos metálicos, como se tivesse saído de um qualquer filme de espiões.

As escadas de madeira, 13 degraus, que adorávamos subir e descer a grande velocidade até que alguém se queixasse do barulho, sem nos agarrarmos ao corrimão (ides cair! saí já daí!). O boneco de lã que fizémos para a minha avó, preto, de que ela não gostava mas que ainda assim pendurou num lugar de destaque, para o poder ver todos os dias. No primeiro andar, onde os adultos só iam para dormir, havia ainda mais tesouros prestes a serem descobertos. A sala era usada na Páscoa, quando vinha o padre com os seus acólitos, receber o envelope preparado pelo meu avô e continuar o passeio pelas ruas, o sino a tocar, as portas abertas, e toda a gente vestida com fatos domingueiros.

Nos quartos havia gavetas cheias de coisas misteriosas, algumas coisas metálicas, outras redondas, tubinhos, livros, cassetes, cordel, e um frasco com um animal lá dentro, nojento mas irresistível. Na altura, quando não fazia ideia do que era nada daquilo (hoje já sei), adorava remexer naquelas coisas "que não me competiam".

Havia ainda "o armário" e a "arca", num canto mais escuro, onde não mexíamos muito, mas onde uma vez encontrámos um pífaro que tocámos até não poder mais, até que "alguém" o perdeu (provavelmente os meus pais deram-lhe sumiço) e ainda outro instrumento, uma caixa de madeira com umas"teclas" metálicas, que não sei o que é, mas que tinha um som que adorava, e por isso tocava aquilo durante horas - este teve um fim mais feliz e ainda hoje é tocado de vez em quando, apesar de algumas teclas já estarem ferrugentas.

E havia a varanda, com o tanque onde algumas vezes vi os meus tios pisar uvas, ou onde chegou a haver um alguidar enorme cheio de água, onde nasciam girinos, vindos sabe-se lá de onde. Na primavera, quando os passarinhos caiam do ninho, era para ali que eu os levava, na tentativa de os ensinar a voar, que invariavelmente acabava com a morte trágica do animalzinho, que na maior parte dos casos, nem penas tinha.

Lembro-me dos jogos de polícias e ladrões, em que os ladrões usavam os dois walkie talkies que tínhamos, e o polícia (eu), apanhava as conversas dos ladrões pelo rádio - por sorte, os walkie talkies transmitiam a uma frequência que dava para apanhar num rádio normal.

E o melhor de tudo, era a liberdade de andar por ali sem vigilância, a correr pelas ruas fora como se não houvesse amanhã, a brincar com as filhas dos vizinhos.

À noite, jogávamos à sueca, e víamos televisão. E a minha avó dizia, que sempre que via televisão, nos procurava, na caixinha mágica. Aquilo ficou-me marcado para sempre, e só tive pena, de uma vez em que realmente ela me poderia ter visto, não ter levado um cartaz a dizer "avó, estou aqui". Agora já é tarde, e isto não é a televisão, mas ainda assim, eu sei que hoje estás a ver.

10 comentário(s)

10 Comentário(s):

O que tu me foste lembrar...

By Blogger ups, at 11:05 da tarde  

ups: só coisas boas, espero! :)

By Blogger Snowgaze, at 11:20 da tarde  

Avó! Eu também estou aqui!!!

Muitos beijinhos
paulita

By Blogger Paulita, at 12:35 da manhã  

Excelente descrição, dá para imaginar ao pormenor tudo o que contas.

By Blogger edelweiss, at 10:21 da manhã  

Belas recordações! E belas recordações que as tuas me fizeram ter...

Algumas saudades de um tempo mais despreocupado...

E já agora: "Avó! Olha eu aqui no blogue da Snow!"

Beijos

By Blogger Dani, at 2:51 da tarde  

Eu também! Eu também! Adoro-te avozinha linda!

By Blogger BloodyLiLith, at 9:40 da tarde  

Passei para deixar um até já e votos de Boas Festas!

Beijinhos :)

By Blogger Mamaíta, at 10:44 da tarde  

Quero dizer que gostei muito de ler estas recordações.

Como também guardo memórias semelhantes estas descrições conseguiram tocar-me..

By Blogger Eu mesmo, at 11:13 da tarde  

Gostei tanto Snow!! Que boas memórias...
beijinho,

By Blogger Cromossoma X, at 4:45 da tarde  

Parabéns. O texto ficou maravilhoso, e... saboroso. Gostei muito de seu estilo.

Aproveito para convidar-lhe a visitar meu blog
LA-BALESTRA.BLOGSPOT.COM

Terei satisfação de receber seus comentários.

Aqui em Maringá (Paraná - Brasil) temos encontros pessoais de blogueiros. Estamos formando uma força para jogar mais um pouco de cultura para esse mundão tão materialista.

FELIZ NATAL, e MUITA LUZ EM SUA VIDA EM 2007.

By Blogger Roberto Balestra, at 11:33 da tarde  

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